Por amor à arte e à tecnologia

Lembro bem dos bons tempos da pré-adolescência,, andando de monareta pelos subúrbios da Grande Porto Alegre, discutindo os rumos futuros com a gurizada da rua. Cursar superior nunca esteve no escopo das ambições juvenis suburbanas e as possibilidades sérias de profissionalização se resumiam a cursos técnicos: SENAI ou quem sabe programação de computadores (COBOL ou BASIC? – perguntaria qualquer um ao saber do seu interesse pelo mundo dos bits e bytes, que anos antes dos PCs e smartphones, remetiam a imaginação do interlocutor aos filmes de ficção científica com suas máquinas cheias de luzes piscantes e operadores de jaleco branco).

E eu acabei fazendo uma coisa depois a outra. Se por um lado minha experiência na indústria foi efêmera e esquecível (algo tipo “conversando sobre poesia com o tio da ferramentaria”), acabei encontrando redenção nas doces linhas de código do COBOL, Clipper e mais tarde PERL, JavaScript e PHP, e experimentei na prática o conceito de Flow, nome dado pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi para a felicidade ocupacional, onde o desafio e a habilidade se complementam como numa doce dança cognitiva. Depois de uma ascensão profissional meteórica nos anos 90, eu acabei quebrando o processo na virada do século, quando passei a repartir fortemente o interesse pela tecnologia com o amor e a prática da música autoral e da produção musical. Vieram anos felizes junto com o genial Zé Rodrix e seus fiéis seguidores na “igreja” do Clube Caiubi, movimento artístico que movimentou as noites da zona oeste paulistana  em meados anos zero.  E a carreira de programador seguiu pelas redações da Editora Abril, com a criação de produtos para banca e internet, em Flash e outras tecnologias web e depois em agências, criando sites, ligando vários pontos em um único, com mashups e APIs.

E foi ali onde as duas coisas se encontraram, ou apenas se mostraram, porque arte e tecnologia, como todos os outros domínios da vida são apenas lados de um mesmo todo. Este texto é, então, uma declaração de amor à tecnologia onde ela se transmuta em arte e pode trazer um sorriso, um insight, um sentimento ao humano do outro lado da tela. Para que vida permeie mesmo a mais dura burocracia, o mais chato protocolo.

No limiar da terceira década do novo século, onde já não pairam dúvidas sobre a influência das máquinas em nossa vida, que o olhar humano permeie essa influência. Se a inteligência artificial vai ser primeiramente empoderada pela inteligência humana, que seja principalmente do que de melhor ela tenha produzido – porque ao longo dos séculos muita coisa ruim também veio dessa inteligência.

E que as interfaces sejam suaves e leves. Para que não hajam mal-entendidos, já que esses robôs são muito cabeça-duras.

Paz,

Ricardo Soares