Anos de Chumbo – Rica Soares – Single 2017

Eram idos de 2013 quando pipocou na cachola a ideia de fazer uma música “homenageando” os 50 anos do golpe militar de 1964. Nascido em 1967, o que me faz uma criança dos 1970s, minha vida intelectual foi forjada por elementos ‘ditadúricos’, da voz do locutor do certificado de censura federal antes do início de cada episódio do Ultraman – isto é coisa séria, criança –  à leitura ambígua dos manifestos velados fosse nas canções de Chico Buarque ou Raul Seixas , fosse nos desenhos do Henfil, Millor ou nos gaúchos Santiago e Vasques. E isso era na cabeça de uma criança de seus 12 anos escolhendo heróis e bandidos na periferia pobre da Grande Porto Alegre no final da década de 70. Os anos 80, a abertura, a anistia, a explosão do rock nacional, a consagração de outros cartunistas underground, como Angeli, Glauco, Laerte e o resto da galera da Circo trouxeram outros elementos àquela identidade, um pouco de luz. Mas a sombra nunca verdadeiramente sumiu, e na simbologia das coisas o fato era que você vivia muito próximo da realidade dos povos oprimidos da Ásia e da América Latina com seus Kaddaffis e Papa Docs do que de qualquer sonho libertário norte-americano ou europeu com os quais você sonhava alimentado pela utopia televisiva-hollywoodiana-rockeira. Sempre mais próximo daquela foto da criança vietcongue fugindo da chuva de napalm do que de todas aquelas outras do Clube do Mickey. Mas os anos que se sucederam enganaram bem, a ponto de, de volta àqueles idos de 2013, os 50 anos da ditadura serem apenas um número redondo de uma coisa que, se achava, havia ficado há muito no passado, coisa de, tipo, meados de um outro século. E de repente, como que num flashback psicodélico de uma droga ruim, as canções voltam a ter de ser de protesto, e não protesto contra papai e mamãe não emprestarem o carro ou a gostosa da sala não me dar bola, mas protesto contra a ideia de que se eu falar o que penso você pode me prender, me bater, me fazer sumir. Eu continuo a mesma criança não entendendo nada, e sigo com os mesmo heróis, talvez essa brecha no tempo tenha sido apenas uma noite bem dormida, com um sonho bom no meio, separando dois dias de trabalho árduo. Trabalho árduo de cantar por uma liberdade que nunca houve de qualquer forma. Aquilo nem era liberdade, era só zona de conforto.

Rica Soares, 23/02/2017

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