Zé Rodrix e Os Tropeçalistas – a saga!

Zé Rodrix em sessão de fotos com os Tropeçalistas em 2005 - Foto Marcelo Kura

Tudo bem que eu já tinha bebido umas cervejas no show do Elio Camalle quando apresentei o Zé Edu pra um amigo como “o cara que escreveu Cisco No Olho”. Estranha confusão, levando em conta que quem escreveu Cisco No Olho fui eu… Dois dias depois o Sonekka me falou que Zé Edu também ganhou status de membro d’Os Tropeçalistas na nova biografia O Fabuloso Zé Rodrix, escrita por Toninho Vaz e lançada no dia do aniversário póstumo de 70 anos do amigo de fé, irmão, camarada Rodrix.

Diz a lenda que Os Tropeçalistas começaram como uma banda de pagode que nunca chegou a pagodear. Dizem que o Tito Pinheiro, benemérito compositor caiubista de sambas finos, era candidato a participar da banda e dizem que eu na época me esquivei dizendo “Sambista, eu? Só se for o sambista mais famoso do delta do Mississippi. A banda acabou estreando no próprio Clube Caiubi em 2004 num show semiacústico para a mesma boa velha meia-dúzia de boêmios intelectuais sensíveis o bastante para curtir uma mpb-autoral-underground-cabeça. O mundo precisa de mais gente assim, é o que sempre digo.

Foi às vésperas do retorno da carreira solo do Rodrix, com o show As Canções, no Supremo Musical que a banda tomou a forma mais conhecida, com os mesmos quatro artistas do primeiro show – eu, Sonekka, Vlado Lima e Ricardo Moreira, mais o baixista ex-Detonautas Marcos Oliva, o guitarrista ex-Stay Puff e futuro celebrity chef Lucio Manosso e o Rodrix nas teclas e na presidência do combo. E vieram dias loucos.

Os ‘Tropeças’ estrearam em junho de 2004 no mesmo Supremo Musical, na primeira de quatro noites protagonizadas pelos artistas do Clube, todas com o espaço lotado (Ok, o espaço era meio pequeno) destilando irreverência em canções testadas e aprovadas nas noites autorais do Clube, agora com roupagem mais pop, agora com som de banda, numa apresentação cheia de esquetes cômicas. O carro-chefe do repertório era a polêmica Eu Odeio Caetano Veloso, canção de Vlado Lima que era a cara da irreverência que uniu Rodrix ao Clube Caiubi – se duvidar, ouça Zé cantando sua ‘homenagem’ ao rei Roberto na famigerada Um Trem Passou Por Aqui com o Joelho de Porco.

Lembro bem de quando Eu Odeio Caetano Veloso foi escrita, nos primórdios do Clube Caiubi, como uma provocação aos fãs do Caetano, por um outro fã do compositor. A canção criticava a indústria cultural em geral, musical em particular, do começo dos anos zero, comendo a galinha dos ovos de ouro, arrancando cada centavo dos fãs com discos assépticos. Artistas gravavam o disco, depois lançavam o disco ao vivo do show do disco, depois gravavam o acústico do disco do show do disco. Nauseante. Caetano por aquela época trocou o mote “Dinheiro, não!” por “Dinheiro, sim!” e foi ser feliz. Irônico que no Brasil de 2017 tenha sobrado ao próprio Caetano a resistência à ditadura distópica. No mais, a letra de Eu Odeio Caetano Veloso é inteligentíssima.

Os Tropeçalistas partiram para uma sequência de shows, regada a niilismo emepebístico, álcool e muito pouco entendimento sobre o futuro profissional da banda. Tocaram no TUCA, no Crowne Plaza, no Centro Cultural São Paulo, em bares de rock de Pinheiros e da Madalena e fizeram uma desastrosa apresentação em Botucatu para uma dúzia de incautos. No retorno de Botucatu, numa negociação da produtora Suka Inglês, entraram no estúdio Quorum para gravar uma demo. Essa demo, que virou o álbum Canalhas Não Mandam Flores, é até hoje o único registro oficial de estúdio da banda.

Depois disso o baixista Marcos Oliva saiu de cena, sendo substituído pelo notável guitarrista Nando Lee – formação que tocou na mostra “Caiubi – As Melhores Canções do Sculo XXI e As Piores Também”, no teatro Crowne, e depois por Wilson Stoffel para algumas poucas apresentações antes do nunca anunciado fim.

Houve uma sessão de fotos, pouco antes do show do Crowne, feita no Bexiga pelo fotógrafo Marcelo Kura. Nela, com os Tropeças caracterizados como personagens de suas canções, Zé Rodrix aparece envolto em um manto branco, como se fosse um Yoda do pop. Um Yoda que quando eu esqueço ainda me diz “Gauchinho, quem sabe, sabe, quem não sabe não precisa saber”.

Você Me Corneou – ou O Dia Em Que Eu Entrevistei Carlinho, a.k.a. Zé Rodrix

Zé Rodrix tinha pedido uma força pra gente na gravação de um piloto de programa de rádio que ele apresentaria na Rádio Globo de São Paulo. Por “a gente”, entenda-se o Clube Caiubi em geral e os caras que viriam a formar Os Tropeçalistas em particular: Eu, Sonekka, Vlado Lima e Ricardo Moreira.

Foram dias corridos e de um fantástico insight na mente criativa do gênio: o Zé tinha todos os conceitos desenhados na cabeça, e o trabalho era facilmente dirigido no sentido de transformar aqueles conceitos em peças de áudio. Eu e o Vlado criamos e gravamos uma ou duas esquetes baseadas em personagens paulistanos ligados ao futebol, que era um dos temas do programa, e o Zé encomendou pra gente uma letra para um pagode esculachado, chamado Você Me Corneou, de um conjunto fictício chamado Raça Ruim – um grupo de italianos que falavam castelhano, juravam que eram cariocas e cantavam pagode. A esquete era uma série de tiradas do Rodrix com um de seus temas preferidos: a decadente indústria fonográfica daqueles tempos, com jabás, acústicos e saturação de lançamentos. Eu e o Sonekka apresentamos letras, o Zé ficou com a minha e esta acabou sendo minha segunda parceria com o querido maestro, ao lado de Notícias de Mim. No home studio do meu apartamento no Jardim da Saúde, baixamos um arquivo midi de um sucesso de pagode da época, dele roubamos a bateria e o Zé tocou o resto – a tecladeira – com o Vlado cantando, emulando os ídolos do pagode. Na sequêncai o Zé me passou a lista de perguntas que ele já havia roteirizado previamente e gravamos a entrevista.

Reouvindo hoje, isso me traz de volta várias lembranças de texturas e pequenas nuances do que foram aqueles dias na companhia do Zé e da arte que preenchia os espaços onde ele estava presente. O programa acabou não virando, e assim é a vida dos criadores: seguimos com pilotos e mais pilotos, tomando um caminhão de nãos, virando um projeto aqui e outro ali. Parafraseando Leonard Cohen, talvez você chame isso de amor, eu chamo de serviço.