Você Me Corneou – ou O Dia Em Que Eu Entrevistei Carlinho, a.k.a. Zé Rodrix

Zé Rodrix tinha pedido uma força pra gente na gravação de um piloto de programa de rádio que ele apresentaria na Rádio Globo de São Paulo. Por “a gente”, entenda-se o Clube Caiubi em geral e os caras que viriam a formar Os Tropeçalistas em particular: Eu, Sonekka, Vlado Lima e Ricardo Moreira.

Foram dias corridos e de um fantástico insight na mente criativa do gênio: o Zé tinha todos os conceitos desenhados na cabeça, e o trabalho era facilmente dirigido no sentido de transformar aqueles conceitos em peças de áudio. Eu e o Vlado criamos e gravamos uma ou duas esquetes baseadas em personagens paulistanos ligados ao futebol, que era um dos temas do programa, e o Zé encomendou pra gente uma letra para um pagode esculachado, chamado Você Me Corneou, de um conjunto fictício chamado Raça Ruim – um grupo de italianos que falavam castelhano, juravam que eram cariocas e cantavam pagode. A esquete era uma série de tiradas do Rodrix com um de seus temas preferidos: a decadente indústria fonográfica daqueles tempos, com jabás, acústicos e saturação de lançamentos. Eu e o Sonekka apresentamos letras, o Zé ficou com a minha e esta acabou sendo minha segunda parceria com o querido maestro, ao lado de Notícias de Mim. No home studio do meu apartamento no Jardim da Saúde, baixamos um arquivo midi de um sucesso de pagode da época, dele roubamos a bateria e o Zé tocou o resto – a tecladeira – com o Vlado cantando, emulando os ídolos do pagode. Na sequêncai o Zé me passou a lista de perguntas que ele já havia roteirizado previamente e gravamos a entrevista.

Reouvindo hoje, isso me traz de volta várias lembranças de texturas e pequenas nuances do que foram aqueles dias na companhia do Zé e da arte que preenchia os espaços onde ele estava presente. O programa acabou não virando, e assim é a vida dos criadores: seguimos com pilotos e mais pilotos, tomando um caminhão de nãos, virando um projeto aqui e outro ali. Parafraseando Leonard Cohen, talvez você chame isso de amor, eu chamo de serviço.

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