Zé Rodrix e O Homem Que Eu Amei Um Dia

“Segunda o Zé Rodrix vai lá!”, avisou o Sonekka por email para o grupo de artistas que formava o núcleo criativo – e tentava administrar, daquele jeito que os artistas administram – o Clube Caiubi de Compositores.

E Zé Rodrix era, para a galera do Caiubi, de faixa etária girando pelos trinta e poucos, como se fosse o Roberto Carlos ou o Paul McCartney: todo mundo lembrava das façanhas do carinha magro de bigode grosso e sorriso largo que invadiu os programas de TV e as paradas de sucesso no final dos anos 70 com hits grudentos que tocavam sem parar. Todo mundo sabia que ele era o cara por trás de Casa no Campo, outro sucesso retumbante, este na voz de Elis Regina. E muitos sabiam do trio com Sá & Guarabyra, do Joelho de Porco, dos jingles milionários de uma outra época da publicidade.

As Segundas Autorais do Clube Caiubi, botequinho de uns 40 m² no bairro de Perdizes em São Paulo, eram encontros semanais de compositores que mostravam suas criações em palco aberto, duas ou três canções por compositor, com média de 15 compositores por noite. A cerveja quase gelada e o clima universitário emprestado pelo entorno da PUC ajudavam em dar uma tonalidade quase sessentista àqueles eventos, como foi percebido numa reportagem da MTV na época. Woodstock nunca morre.

E foi nesse clima de paz e amor e precisamos-derrubar-a-ditadura-cultural que o Rodrix aportou por lá naquele distante 2004. E essa química funcionou como mágica naquela noite. O “caroço-duro” criativo do Clube Caiubi desfilou suas criações provocadoras, como costumava ser toda segunda, e o cenário veio de encontro às concepções que o Zé tinha naquela nova fase de sua carreira musical. Em poucos meses ele estrearia As Canções, seu novo show solo, o primeiro desde sua súbita debandada do show-business no auge da fama no começo dos anos 80. No espetáculo, concebido como uma celebração à sua arte e suas ideias tão propagadas em discussões na internet ou em volta de mesas na vida real, o velho mestre relia velhos sucessos e apresentava novas criações e parcerias. O projeto, mesmo sem decolar para o mainstream do entretenimento, evoluiria para o belíssimo show apresentado anos depois junto com a Jazz Big Band – o mesmo conceito cercado de toda a pompa e circunstância – um completo Zé Rodrix.

Naquela segunda-feira eu apresentei um blues escrito uns poucos dias antes, chamado O Homem Que Eu Amei Um Dia, que contava a história de um cara que virou mendigo e tentava manter alguma dignidade (e certa arrogância) ao se deparar com a ex-esposa na rua. O Zé curtiu e me pediu uma demo pra levar pro Nasi, vocalista da banda Ira!, que estava, na época, gravando seu primeiro disco solo, e tinha mesmo como faixa-título uma canção do Zé em parceria com a poeta paranaense Etel Frota, Onde os Anjos Não Ousam Pisar.

Não deu nada, claro, apesar de eu concordar com o Zé que a música é muito boa – a canção teve ainda um outro célebre fã, o compositor Sérgio Sá, que a pedia nas Autorais no curto tempo que frequentou o Clube Caiubi já na fase Pinheiros. Noves fora, azar o seu, Nasi.

Mas confesso que fica essa pulga atrás da orelha sobre o primeiro impacto de um nome de canção: O Homem Que Eu Amei Um Dia! Será que ele é gay? O título se refere à uma suposta prece que a mulher faria à noite, após ver o ex-marido mendigando na rua: -Oh meu Deus, proteja este homem que eu amei um dia. Mas já teve gente que apenas ao ouvir o título já veio dando explicação: -O homem que eu amei um dia foi o meu pai! Eu mesmo pra evitar confusões pensei que deveria ter trocado o nome da música para Canetas Vazias, tirado de outro trecho da música, antes de tentar a sorte com um cantor que alardeia ter transado com mais de mil mulheres. Depois pensei que se tá bom pro Zé, tá bom pro cantor, pro show, pro disco, pro mercado. E está bom pra mim.

E O Homem Que Eu Amei Um Dia faz parte do repertório do álbum O Sambista Mais Famoso do Delta do Mississippi, gravado em 2004, virtualmente inédito e com lançamento digital programado pra breve, breve.

O Homem Que Eu Amei Um Dia

Letra e música Rica Soares

Diga, meu bem, o que você faria
Se me encontrasse na esquina
Vendendo canetas vazias?

Por detrás dos trapos reconheceria
O corpo que em noites de frio
Lhe fez companhia?

E ao fim da noite em sua cama macia
Meu bem numa prece, então
Você pediria?

Oh Meu Deus, proteja este homem que eu amei um dia

E diga, meu bem, você me ofereceria
Um cigarro para depois da pizza fria?

Quem sabe um sorriso? Seu honroso bom dia?
E não somente aquele olhar
De “bem que eu dizia”?

E ao fim da noite em sua cama macia
Meu bem numa prece, então
Você pediria?

Oh Meu Deus, proteja este homem que eu amei um dia

Que a vida é assim, inesperada e crua
Oh, não vá, meu amor, para o outro lado da rua
Uns dias sem banho nem me fazem assim tão pior

Quem sabe, meu bem, você nem me notaria
Perdida em pensamentos do seu dia-a-dia

E despercebido eu então passaria
Com meu cobertor, minhas canetas vazias

E ao fim da noite em sua cama macia
Despreocupada
Se perguntaria

Por onde andará este homem que eu amei um dia?

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