Zé Rodrix, eu e o “Será que fuma Hollywood?”

Apresentando o último número de seu show As Canções, em 2004, na histórica casa noturna paulistana Supremo Musical, Zé Rodrix explicava que havia quebrado um tabu ao fazer parceria com um autor dito “imparceirável”. Nem sei se a palavra existe, mas tal era minha fama em meio à galera na época. Muitos compositores giravam por ali, tanto fisicamente quanto virtualmente e a troca de letras e melodias entre parceiros era frequente, e a popularização da internet possibilitou parcerias em âmbitos muito mais abrangentes, nacionalmente ou mesmo internacionalmente. Alguns tinham seus parceiros fiéis, outros davam – letras, melodias – pra todo mundo e não era nada raro algum trecho de canção ser postada em algum grupo para que alguém se aventurasse a complementar com o que faltava. Não era a minha, acho que sempre tive certa fixação pela minha própria leitura de mundo, o que tornava difícil o desprendimento e mesmo a alegria necessária àquelas parcerias. Mas como essa atitude nunca foi uma bandeira, resolvi que ia trabalhar para que essas parcerias acontecessem. Deu certo, acho que hoje eu tenho umas cinco ou seis. Parece pouco, mas são belos trabalhos, ou eu acho que são.
A letra de Notícias de Mim foi escrita em 15 ou 20 minutos, nasceu de uma frustração na hora de procurar um disco que complementasse o que eu estava sentindo num determinado momento (ah, os doces problemas da década passada…). Comecei a procurar um disco que conversasse com as coisas que estava sentindo e não achei nenhum e perguntei a mim mesmo: -Quem foi o cara que comprou esses discos? Passei a letra pro Zé naquela noite, em poucos dias ele enviou email avisando que tinha terminado e se dizendo bastante feliz com o resultado. Da letra original ele havia alterado um ou dois versos, foi ele quem pôs aquele “labirinto sem fim” na última estrofe. Eu achei o resultado sensacional, achei que tinha ficado com uma certa textura das coisas antigos dele do trio com Sá & Guarabyra, e acho que naquela noite no Supremo foi a primeira vez que a ouvi no piano, ele costumava tocá-la sempre ao violão – ele sempre levava ao Caiubi aquele Yamaha “de criança” que ele toca na versão de Jesus Numa Moto do DVD Outra Vez na Estrada. Notícias de Mim é até hoje uma das minhas músicas preferidas e basta aquele acorde à Beatles de abertura pra me reconectar com o porque eu estou nesse negócio.
Como o refrão era chicletudo, acabou virando um pequeno hit nas noites autorais, com o público cantando junto, e logo ganhou uma versão sacana, naquele eterno clima de oitava série que rola onde se encontram artistas e cervejas, onde o verso “Será que foi pra Hollywood, será que se perdeu no breu?” virou “Será que fuma Hollywood? Será que ele serrou o meu?”. Uma vez não-me-lembro-quem, não-me-lembro-onde, numa entrevista disse que quando apareciam estas versões jocosas era porque a música era sucesso. (Acho que era sobre Blowin’ In The Wind ser satirizada na cena folk de Greenwich Village dias antes de Bob Dylan virar lenda). Bingo, haha.
A canção acabou não entrando no repertório das próximas duas grandes empreitadas do Zé – do último disco do trio Sá, Rodrix e Guarabyra e do show com a Jazz Big Band, neste ele me deu a honra de interpretar a canção Fortaleza da Solidão. E a história teve um final quase feliz, quando foi gravada em 2012, em um disco póstumo homenageando Zé, pelo Jerry Adriani e seu indefectível vozeirão. A versão inédita descansa em algum armário de algum produtor esperando um momento certo pra ver a luz, mesmo depois de eu ter avisado lá “-Ô, já falei pra minha mãe que o Jerry Adriani gravou minha música, não pode dar pra trás agora!” Invocando o Buda e a compreensão de que o melhor momento é sempre aqui e agora, eu pergunto: Alô, produção? Tem jeito?

Notícias de Mim (Rica Soares / Zé Rodrix)

Olhando para os meus discos
Um pensamento me ocorreu
Meus discos eram de outro cara
Um cara que não era eu

Elementos que eu não conhecia
Um mundo que não é o meu
Mas se realmente existiu esse cara
Onde é que ele se escondeu

Será que foi pra Hollywood?
Será que se perdeu no breu?
Será que ainda hoje faz revolução?
Quem sabe não enlouqueceu?

Por isso fico procurando
No Meu labirinto sem fim
Qualquer coisa que possa me dar
Notícias de mim

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